Karma – Ação, conseqüência, tempo, 

A palavra karma vem sendo utilizada e mal interpretada por centenas de séculos, e com isso vamos vagando num circuito condicionado, como numa barca sem comandante e sem leme, que ora cunha marcas a bombordo, ora a boreste, sendo que, quando abalroada, muitos tombam e morrem sem qualquer compreensão sobre o que está acontecendo. Usualmente, encontramos pessoas reclamando da vida e colocando toda a “culpa” nos ombros do pobre do karma: “é o meu carma”, “que carma horrível tenho eu”, “oh céus, oh dor, oh vida, oh azar”, e por aí vai. Esse comportamento delusório me faz lembrar a hiena Hardy, naquele fantástico desenho animado com o leão Lippy em 1970. É uma das mais amplas manifestações de desconhecimento sobre as leis que regem o multiverso em que vivemos, fato que me motivou a escrever sobre este exuberante tema. Não é uma tarefa simples, em virtude da vasta ausência de literatura sobre o tema, além da enorme ausência de interesse por parte da sociedade.
O magnificente filósofo Siddhāttha Gotama nos ensinou, há quase 2.700 anos, que existem quatro pilares sustentadores do multiverso: a impermanência e a interdependência dos fenômenos, o karma e a vacuidade. Vou me ater no terceiro destes pilares. O termo karma é derivado da raiz sânscrita “kri” que significa trabalhar, produzir, porém, a tradução literal é ação. Assim, necessitamos entender o seu significado de uma forma mais abrangente.
O primeiro aspecto do karma se realiza quando se produz uma ação, seja ela mental, falada ou física. Como tudo é energia neste multiverso em que vivemos, nossas formas de ação também as são. Portanto, o pensamento, a intenção, a fala e a ação física são formas de ação, ou seja, formas de manifestação de energia. Neste ponto, o cerne da questão é que não se possui a devida consciência sobre as possíveis conseqüências desta ação, nem como a energia se manifesta, nem como se transforma. Além disso, é fundamental compreender que todas as formas de ação são geradas pela mente. Primeiramente, surge uma ação mental, que pode produzir uma ação falada e outra física. Portanto, a mente é o fator gerador das ação.
Quando a ação gerada cessa, imprime uma potência energética, uma predisposição na mente, já que foi a própria mente que a gerou. Neste ponto, é relevante citar que a energia não desaparece, mas sim, pode ser transformada; lembremo-nos da lição do mestre Antoine Lavoisier no século XVIII: ”Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma!”. Por outro lado, a mente é uma forma ilimitada de energia, não possuindo início, meio e fim. Dessa forma, se a mente gera ações, quando essas ações cessam, não desaparecem, mas sim, transformam-se em potências energéticas armazenadas na própria mente. Eureca: a mente gera as ações, que quando cessam ou se extinguem inexoravelmente se transformam em potências energéticas. Como foi a mente que a gerou, ela mesma a armazena.
Assim, poderíamos dizer que a mente está atuando como um “continuum de ações”, ora como produtora de ações, ora como depositária de potências energéticas advindas das suas próprias ações. Este continuum mental irá carregar as potências energéticas até que se manifestem novamente em forma de ações, ou seja, como novas ações, que chamamos de conseqüências ou efeitos. O que não sabemos é o tempo em que estas conseqüências irão se manifestar, nem as suas intensidades. O momento da manifestação da conseqüência (da nova ação) poderá surgir nesta vida, ou em vidas futuras.
Portanto, temos aí a famosa máxima “causa e consequência” que, de fato, nada mais são do que ações que geram novas ações. Assim, existe um continuum do eu dependentemente designado, o qual proporciona a base para a infusão da predisposição criada por uma ação. Dependentemente designados porque uma ação depende da outra e, ao mesmo tempo, fixando e classificando a outra. Tanto a ação quanto a predisposição que esta deposita na mente são chamadas de karma. A base contínua de infusão das predisposições mentais é a consciência individual condicionada, ou seja, o indivíduo gerando sensações, percepções e estruturas mentais, vida após vida. Aqui surge uma eminente descoberta: caso as minhas ações sejam virtuosas, teremos conseqüências virtuosas. O ponto negativo é que o contrário também é verdadeiro. Daí a relevância em se efetuar um desenvolvimento consciente e sustentável. Assim, podemos concluir que a definição de karma envolve quatro aspectos ou estágios: ação, conseqüência, tempo para a nova manifestação e manifestação da conseqüência.
A Filosofia Budista nos revela também que existem dois tipos em termos de manifestação ou não manifestação da consequência da ação: aquelas onde o efeito da ação é definido para ser vivenciado e aquelas onde o efeito da ação não é definido para ser vivenciado. Além disso, há causas e conseqüências projetadas e concretizadas. Uma determinada ação anterior, movida por formações mentais ignorantes, passa a ser a causa que projeta uma conseqüência futura. Esta conseqüência irá se transformar numa causa concretizada, que se concretizou: nossos desejos incessantes e desnecessários, apegos, a nossa própria existência atual. E assim vamos nós: oh vida, oh céus, oh dor, oh meu carma……
Causa e conseqüência possuem uma relação interdependente e qualitativa, sendo assim, ações virtuosas geram conseqüências virtuosas, ações não virtuosas geram conseqüências não virtuosas, que nos mantém atrelados a um ciclo condicionado de sofrimento. Atividades mentais geram experiências, gerando objetos mentais, e assim sucessivamente. Em sânscrito, este processo cíclico é chamado de samsara.
Karma individual e karma ambiental
Existem ações cujos efeitos são experimentados por apenas um indivíduo – karma individual, como por exemplo, um indivíduo que intencione agir de uma determinada maneira e sofre as suas próprias conseqüências. E ações cujos efeitos são experimentados em comum, por um grupo de seres – karma ambiental, como por exemplo, vivenciar situações não virtuosas geradas por outras pessoas, ou seja, o efeito do karma de um indivíduo se manifesta através de outros seres, que passam a ser os veículos de manifestação do nosso karma. Por exemplo, um indivíduo que pratica boas intenções e bons comportamentos durante anos, porém, estava exatamente num acidente de vôo aéreo, ou mesmo, ao conduzir o seu veículo cuidadosamente, vê-se de repente com uma pessoa que despretensiosamente se joga a sua frente, causando um sério acidente para ambos. Aqui, podemos entender melhor que o karma se relaciona também com ações passadas, muitas vezes de vidas passadas, bem armazenadas no continuum da mente.
Causas e circunstâncias
Para que o karma se manifeste, são necessárias causas e circunstâncias. Se todas as causas e circunstâncias estiverem reunidas, nada poderá impedir que a consequência se manifeste, ou seja, que o efeito surja. A Filosofia Budista nos oferece quatro tipos de ação (virtuosas e não virtuosas):
a) Realizadas intencionalmente.
b) Intencionadas, mas não praticadas.
c) Praticadas, mas não intencionadas.
d) Nem intencionadas, nem praticadas.
O ponto diferencial é a intenção ou motivo, que são as forças que geram o karma. Somente existe karma quando há intenção. Quando houver uma ação não intencional, não haverá karma. Portanto, dos quatro tipos acima, os dois primeiros são ações que gerarão efeitos a serem vivenciados, ou seja, passam a ser causas projetadas. As duas outras são aquelas onde o efeito não esta definido a ser realizado. Portanto, mesmo as intenções positivas continuam gerando karmas, gerando uma existência condicionada.
Sobre as ações virtuosas
A ação virtuosa deve compreender cinco fatores:
1) Intenção.
2) Pensamento que identifica corretamente o objeto de ação.
3) Preparação para a ação virtuosa.
4) Conclusão bem sucedida.
5) Irreversibilidade da intenção antes de a ação ser concluída.
Os grandes Mestres budistas afirmam que, mesmo que uma pessoa deseje matar alguém, ou inscreva-se no exército e seja induzida a matar, caso tenha um forte arrependimento imediato, o efeito desta ação passará a ser indefinido, através de uma nova e determinada ação consciente. Portanto, podemos perceber que a intenção (motivo) é mais importante do que a ação física. Ainda afirmam que os seres iluminados não possuem intenções; simplesmente agem.
Ainda podemos citar duas qualidades do carma: o carma impulsor, que impele ou projeta uma nova vida num dos 6 reinos de existência (assunto para um outro artigo). Pode ser mais virtuoso (nascer num corpo humano) ou menos virtuoso (nascer num corpo animal). E o carma complementar, complemento do carma impulsor, ou seja, determina a sua qualidade de existência (projeta um corpo sadio, não sadio, bonito, feio, ou, se o indivíduo se torna rico, pobre, faminto, raivoso, etc).
Finalmente, quando falamos sobre o karma temos a tendência em intelectualizá-lo demais. A definição de karma compreende uma forma de ação, que causa uma conseqüência, que irá se manifestar num determinado tempo. Não nos é difícil, então, compreender que as intenções são geradas através da existência de um Eu, de uma consciência individual condicionada. Quem deseja ou quem gera intenções é sempre o Eu e, portanto, de alguma forma está sempre procurando beneficiar-se a si mesmo: para o Eu, pelo Eu, com o Eu. Através da prática iremos entender que para gerar ações em benefício dos outros, não há necessidade de intenções: é uma necessidade genuína.
Portanto, num nível prático, karma não é algo complicado ou filosófico. Significa observar o nosso corpo, boca e mente, tentando manter estas portas da forma mais pura que pudermos. Este deve ser o enfoque na prática das nossas ações. Assim, podemos concluir que o que vemos agora é o que a nossa visão cármica nos permite ver, nada, além disso. Sim, caros leitores, é extremamente difícil reconhecer e aceitar que o Eu é a única causa do nosso impermanente ciclo condicionado de sofrimento: o karma é a porta de entrada para o seu sofrimento, porém, é também a sua saída. A compreensão sobre o processo cármico é uma protuberante ferramenta para a vida: é, de fato, um fundamental pilar na busca de uma filosofia de vida consciente e sustentável

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