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Afinal... quem é o seu ego?


Muitos estudiosos como Buda, Freud, Jung e Sartre tentaram decifrar o ego, aquilo que você chama de "eu". A questão é: ele é você, mesmo? Há duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa é que há um certo consenso, sim. A ruim é que o consenso mais complica do que explica. E o que vem a ser esse consenso? O ego pode ser o foco central da sua personalidade, como dizia Freud. Ou um monte de elementos agregados que parecem ser uma unidade, como querem os budistas. De qualquer forma, ele é só uma parte de você.

Para saber como nasce o ego e como ele se desenvolve, observe um bebê recém-nascido. Com o tempo, o bebê passa a existir. Com 2 anos, a criança já tem uma perfeita noção de que está separada do mundo próximo - da mãe, do pai, dos brinquedos, da roupa e da comida. Surge o "eu", em oposição aos "outros". Essa sensação de identidade é o que vai garantir sua sobrevivência. O ego é necessário e vital nesse período.

Assim a criança cresce, tendo a si mesma como referência, ou seja, buscando o que lhe dá prazer e tentando evitar o que a faz sofrer. Lembrando-nos do que fizemos ontem e do sentimento que aquilo causou é que escolhemos o que fazer hoje.

O problema é que mais cedo ou mais tarde, as escolhas pautadas pelo prazer começam a não satisfazer mais. Não basta a casa confortável, o carro veloz, o trabalho satisfatório, os filhos, a mulher ou o marido. Aflora um sentimento profundo de falta. É nessa fase, na crise existencial da meia-idade (que pode acontecer antes ou nunca), que surgem as perguntas "quem sou eu?". Começa uma busca, não mais restrita aos desejos do ego, mas para além dele.

Trata-se de reconhecer que nossos desejos e nossa identidade são dinâmicos. Eles mudam com o tempo, o lugar, as circunstâncias. Você nunca se pegou sentindo, pensando e agindo de forma diferente, às vezes até contraditória, quando está de férias? É isso. Para explicar variações como essas, algumas tradições espirituais dizem que dentro de nós existe não apenas um "eu", mas dezenas deles, que se revezam a cada minuto, nos desdizendo o tempo todo. E os estudiosos do assunto concordam.

Freud explica

Na psicologia ocidental, o ego vive na maior saia justa. A estrutura da personalidade, segundo Sigmund Freud, é dividida em três partes. Tem o ego, mas também tem o id e o superego, que permanecem como a parte submersa de um iceberg.

O id é nossa fração mais instintiva, primitiva, e vive entre dois opostos. De um lado, o impulso para a vida, para o prazer. Do outro, o impulso para a morte, a destruição.

O superego é o freio a isso tudo e representa as forças de controle da sociedade. Segundo o médico vienense, ele também tem duas vozes: o ego ideal, que é uma imagem projetada de nós mesmos, da maneira que gostaríamos de ser; e a consciência, que é quem diz como fazer para alcançar o ego ideal.

Ou seja, para Freud, o ego, não é nada mais do que um funcionário pragmático com vários patrões.

O inconsciente coletivo

Carl G. Jung, discípulo de Freud, trouxe a essa teoria uma novidade e tanto. Ele também diz que nós somos mais do que o ego. Mas, para ele, em vez de id e superego, o que carregamos é o inconsciente coletivo. Ou melhor: o inconsciente coletivo é que nos carrega dentro dele. É uma espécie de voz que vem do passado e que nos lembra quem somos e como chegamos aqui. O ego seria apenas o centro. O resto são experiências, valores e conceitos que compõem o inconsciente coletivo. Os sonhos e as diversas formas de expressão artística dão pistas de como essas formas arquetípicas influenciam sua mente e sua vida.

Visão budista

Entre as filosofias que destacam o papel do ego está o budismo. Entre seus adeptos, diz-se que ego não é uma unidade, mas um aglomerado de elementos diferentes, que dão a ilusão de ser uma coisa só. Ou seja, lidamos com uma realidade conceitual, diferente da realidade real. E a realidade conceitual é uma ilusão que nos impede de ver a realidade real, dizem os budistas. O mesmo acontece com o ego. Ele é um amontoado de características diferentes, que, juntas, parecem ser uma coisa só. O ego é um conceito.

Num de seus últimos ensinamentos, Buda diz para seus discípulos que tudo é vazio. Ou, de outra forma, que tudo existe apenas virtualmente. Além disso, esse mundo virtual é um todo interdependente e que esse todo está em constante mudança. Em outras palavras: o ego, essa noção que temos de nós mesmos separados do mundo, é uma ilusão. Por essa visão de mundo, tudo está interligado, como uma grande trama, uma rede.

O outro eu

Então há mais de você em você mesmo. Mas como sentir ou viver esse você? Para os budistas, a meditação é o caminho para entrar em contato com nossa verdadeira natureza.

A psicologia transpessoal compartilha essa fé na meditação para a ampliação da consciência. Com a meditação, dizem seus adeptos, podemos ver os pensamentos e desejos fluírem como um rio. Provamos o espaço interior que existe além do ego, tocamos o que não é limitado pelo espaço e pelo tempo.

Se de um lado o Oriente propõe a anulação do ego, no Ocidente há quem pregue que a resposta para as inquietações e a conquista do equilíbrio pessoal pode ser apenas a superação do ego infantil, com a possibilidade do nascimento de um humanismo individualista mais responsável. Se você gosta de grandes nomes para dar fé a teorias, essa tem a assinatura do mitólogo americano Joseph Campbell. É o caminho do meio. Menos ego e mais compreensão.

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