Maturidade





"Também aprendemos que um pouco de bom humor é terapêutico. Na maturidade podemos nos divertir com coisas que anos atrás nos fariam perder noites de sono. Conseguimos fazer uma faxina na alma, removendo coisas aparentemente simples mas que podem ser muito onerosas. Botar fora essa carga emocional de mágoa e frustração que atravanca nossas gavetas interiores traz grande alívio.

Quando tudo parece insoluvelmente ruim, um recurso, ensinou-me uma amiga mais sábia do que eu, é indagar: Isso que está me atormentando é tragédia, ou é só chateação?

Na imensa maioria das vezes nos enredamos no que é chateação. A conta atrasada, o patrão estúpido, o colega invejoso, o filho malcriado, o marido deprimido, a velha mãe descontente, cinco quilos a mais, frustrações tão antigas, as próprias limitações. Chuva demais, sol demais. Muito frio muito calor: de repente, cada vez que respiramos o mundo parece acabar.

Como reagimos a tudo isso depende de criação, ambiente familiar, disposição genética (ah, a genética da alma...), situações do momento. O pessimista colhe todas as notícias ruins do jornal e manda por e-mail para os amigos; o excessivamente otimista acha que a vida é a das telenovelas nos momentos dourados.

O razoável sabe que o ser humano não é grande coisa, mas gosta dele; entende que a vida é luta, mas quer vivê-la bem. Terapia, uma bela caminhada, um novo amor, pintar o cabelo, jantar num lugar delicioso, mudar de lugar os vasos do jardim, comprar um cachorro, ir ao futebol, planejar uma viagem (pode ser só até ali), refletir - tudo isso contribui para mudar um pouco a perspectiva que a gente vinha cultivando.

Tudo é melhor do que a autocompaixão, porque nessas areias movediças quanto mais ficamos mais somos engolidos. É o desperdício da vida que podemos ter e não curtimos, porque a tratamos como prima pobre dos nossos desejos encolhidos na medida da nossa falta de fervor."


(Lya Luft, do livro Pensar é transgredir)

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