Nossa alma tem o seu próprio relógio- Flávio Gikovate



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Com um computador, a razão pode nos mostrar, em pouco tempo, onde estão nossos conflitos. Mas a mudança de atitude obedece ao tempo da emoção, lento como o crescer das árvores.
Quantas vezes já ouvi de clientes meus, depois de lhes dar alguma interpretação, ‘coisas do tipo’: “Ta bom. Mas, agora, o que é que eu faço?” ou “Como tenho de me comportar para me livrar dos meus problemas?” Estas perguntas são totalmente desconcertantes. De nada adiantam as sugestões e os conselhos se a pessoa não está pronta, preparada para ousar novas atitudes ou posturas de vida. Não adianta dizer a uma mulher angustiada, em pânico diante do fato de que esta noite receberá 15 pessoas para o jantar: “Tenha calma. É apenas um jantar, as pessoas vêm aqui para conversar e não para julgar sua competência como dona de casa”. Ela continuará nervosa do mesmo modo. Não será capaz de relaxar e se descontrair, a não ser que haja alterações na sua autoconfiança, a não ser quando ela estiver menos preocupada com o julgamento que as outras pessoas fazem dela.
Para as coisas da alma não adianta ser prático e muito menos apressado. As mudanças interiores mais substanciais não se processam de um dia para outro. O fato de a pessoa saber exatamente porque está se sentindo insegura e com medo pode provocar algum alívio. Mas não é a solução dos seus conflitos. Esse é apenas o início de um processo interior, que poderá levar anos para se consolidar. Sim, anos. Temos que nos habituar à idéia de que nosso mundo emocional não caminha na mesma velocidade da nossa razão. Existem dois tempos diferentes dentro de nós: o da razão, rápido como as operações de um computador, e o das nossas emoções, lento e sólido como o crescer e o florescer das árvores.
Quando somos pessoas honestas intelectualmente, ou seja, quando buscamos saber a verdade a nosso respeito, mesmo que ela nos pareça amarga e dolorosa, conseguimos fazer grandes avanços no plano racional, em pouco tempo. Os avanços racionais dependem da honestidade e também da acumulação de conhecimentos. Cada novo dado de aprendizado corresponde a uma peça a mais do quebra-cabeça da vida, que passa a fazer parte do nosso mundo mental. A gente vai acumulando cada vez mais peças e, de repente, nós conseguimos formar a figura que tanto buscávamos. É um trabalho de paciência, pois o processo é lento e o caminho é longo. Quanto mais conhecemos, mais chances temos de compor nossas explicações e nossas soluções.
Cada cérebro registra de um modo o mundo que nos cerca e as peculiaridades de cada mundo interior. Registra cada novo dado de conhecimento e compõe o quebra-cabeça de uma forma muito individual. Aqueles que, como eu, são amantes da liberdade não gostam de propor fórmulas prontas; preferem que cada pessoa conclua por seus próprios meios e de acordo com seus discernimento. Preferimos a “alta-costura” psicológica ao invés da “produção em massa”. As idéias e conceitos têm que caber corretamente em cada pessoa e isso só ocorre se cada um tirar suas próprias conclusões. Aos profissionais de psicologia cabe apenas revelar os dados que sua experiência permitiu acumular e ajudar as pessoas a desenvolverem a confiança na sua própria forma de ser e de refletir. Além, é claro, de alertá-las quando surgem as inevitáveis tendências para interpretações menos dolorosas, porém falsas.
Na medida em que a razão se conscientiza da necessidade de alguma mudança e compõe claras metas de onde quer chegar, inicia-se o longo processo de alterações no mundo emocional. Essas alterações dependem muito da coragem para se experimentar as situações que provocam o medo e a angústia. E a coragem vem justamente das convicções da razão. No exemplo da mulher insegura, quando recebe visitas em casa, poderá existir uma tendência para que ela evite a situação por medo. Se isso acontecer, ela nunca irá se modificar. Terá de ter a coragem de experimentar, terá de ter seus fracassos e sucessos. Terá que refletir muito sobre porque foi que ela errou. Terá que perceber que o fracasso determina uma dor muito forte, porém suportável. Aos poucos, com a repetição de situações semelhantes, ela se sentirá cada vez mais segura e confiante. Sempre terá um certo medo de que as coisas não saiam ao seu agrado e isso é absolutamente normal quando a responsabilidade é nossa e a auto-estima está em jogo. Os atores sempre ficam um pouco nervosos ao entrar em cena, mesmo quando estão há meses fazendo o mesmo espetáculo. Cada dia é um dia, e o sucesso de ontem não garante nada de absoluto para hoje.
A coragem vem de convicções fortes e definidas. Vem da razão e do esforço de entendimento de si mesmo. Ela é como uma locomotiva que puxa os vagões dos nossos hábitos, medos e inseguranças. Aos poucos conseguimos caminhar. E quanto mais caminhamos, maior se torna a nossa coragem e vontade de evoluir como ser humano. Talvez seja este o maior objetivo de nossas vidas: deixar o planeta, 70 ou 80 anos depois, um pouco melhor do que quando aqui chegamos.

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