“A felicidade está nas coisas simples da vida.”



Jornalista Náira Malze Entrevistando Angelita Scárdua – Psicóloga da Felicidade



O que é psicologia positiva?

É uma abordagem psicológica americana criada nos anos 80, pelo psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar a construção de pensamentos positivos, e o que se pode fazer para ter experiências e emoções saudáveis; e a vida, mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

Na prática o que quer dizer?

Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida, não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha. É possível mudar a forma de perceber o mundo e a sei mesmo.

E felicidade?

É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento,mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?

Por vivermos numa sociedade consumista, há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico.E, riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?

Sim, ela é variável. Para uma pessoa, pode significar pagar o melhor restaurante da cidade.Para outra,subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade, a felicidade fica difícil.

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?

Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação a consumo. Então, se não estou bem, é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação temporária , mas imediata . Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e a capacidade de postergar a satisfação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?

Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos. E alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”. É uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

É realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?

Sim. Acontece que por conta dessa percepção imediatista, muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado, percebe que precisa mudar alguns aspectos. E que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, investir a longo prazo e busca uma saída imediata. Pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?

Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente. E tem a certeza de que será amada independente de quem seja. Isso é fundamental para a felicidade.

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?

É. Jung traz a idéia que, a partir dos 35 anos, vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso. E, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

Como uma segunda chance?

Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que o país ou a igreja ou a sociedade determinaram. A decisão implica em rupturas e perdas e por isso gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, mas isso tem um preço.

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?

Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo, nunca se teve tanto acesso a tantas coisas como hoje. Saúde, moradia férias, bens de consumo. Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais, mas o índice de felicidade está estagnado, desde a década de 50.

“A felicidade está nas coisas simples da vida.”


“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

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